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O MANGUINHO 61 – 20 DE OUTUBRO DE 20

Centro de Saúde Escola da Fiocruz faz 55 anos

Nessa edição, O Manguinho conversou com três trabalhadoras do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF) e se propôs a conhecer um pouco mais de sua história. Localizado em Manguinhos, no campus da Fiocruz, essa unidade de saúde faz 55 anos no próximo dia 27 de outubro. Conversando e pesquisando a gente entendeu que a história do Centro de Saúde Escola está ligada à Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, a ENSP.

No caso do Brasil, é por volta da década de 1920 que a proposta da fundação de uma escola de Saúde Pública aparece pela primeira vez. Na época, inspirada em modelos de outros países, havia duas opções a seguir: a primeira mais voltada a uma abordagem técnica, e outra, mais social e ambiental. A ENSP desde seu início, em 1954, orienta-se pelo segundo modelo, ou seja, entre seus alunos e professores, prevalece a ideia de que o enfrentamento dos problemas de saúde vai além de combater as doenças geradas. A ENSP, segundo sua missão, “forma profissionais, gera e compartilha conhecimentos e práticas no sentido de promover o direito à saúde e a melhoria das condições de vida da população.” O Centro de Saúde Escola, sendo parte constituinte da ENSP, contribui para que essa missão seja alcançada ao ser um campo de prática e pesquisa.

História do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria

Quem começa a contar essa história é a médica Celina Borga:

“O nascimento do Centro de Saúde não pode ser dissociado do nascimento e do surgimento da própria Escola Nacional de Saúde Pública. A ENSP surge em 1954 e 13 anos depois nós temos a inauguração do Centro de Saúde, que era na época denominado uma Unidade de Treinamento, isso porque no primeiro momento era entendido como um espaço de prática para os alunos que a ENSP formava em seus diversos cursos. Isso perdurou um tempo, até que o Centro de Saúde pudesse ele próprio determinar e propor suas próprias ações. Isso sempre foi guiado por um reconhecimento de que lugar é esse que nós estamos agindo e trabalhando. Quais as necessidades que esse lugar apontava e aponta pra nós até hoje? Como fazer o aluno formado pela ENSP entender essa realidade e reconhecer essa realidade? Como durante seu próprio trabalho de curso fazer uma proposta de ação produtiva para aqueles problemas que foram reconhecidos? Foi esse o primeiro momento, foi essa a primeira razão. Mas de todo modo, hoje, depois de 55 anos de existência, que a gente está comemorando agora em 2022, o Centro de Saúde tem claro a extensão do seu papel e executa esse papel num grande tripé: o ensino, a pesquisa e a assistência – que a gente denomina de forma ampla de cuidado. Não só assistência à saúde, à doença e ao enfermo, mas o cuidado de uma forma mais ampla, mais generosa, mais compreensiva de todas as outras razões que não estão no corpo físico do indivíduo, mas que estão no sofrimento mental, psíquico, nas enormes, frequentes e permanentes vulnerabilidades que as pessoas apresentam. Tanto do ponto de vista individual, mas do ponto de vista coletivo, da comunidade. É essa a principal motivação pra comemoração dos 55 anos do Centro de Saúde agora no dia 27 de outubro.”

Um pouco mais de história

A assistente social Idenalva S. Lima enfatiza o quanto é gratificante atender a população de Manguinhos:

“Meu nome é Idenalva e estou no Centro de Saúde há 43 anos, desde 1979. Ao chegar eu soube que o Centro de Saúde foi criado para atender a demanda de alunos aqui da ENSP de Saúde Pública. Para ser um campo de práticas para esses alunos. Mas na minha percepção o Centro de Saúde é mais do que isso, sabe? Foi criado para colher mesmo essa população de forma carinhosa, respeitosa. Eu sinto isso nesses longos anos, tanto da população que nós atendemos quanto aos profissionais daqui. É muito gratificante trabalhar aqui.”

A gente conversou também com a Elisangela Soares, de 54 anos, que mora no Mandela em Manguinhos:

“A importância do Centro de Saúde para mim vem de muito tempo. Cuidava da minha mãe, do meu pai, cuidou de mim nas duas gravidezes que eu tive. E hoje em dia eu posso falar: cuidou tanto que hoje eu presto serviço dentro da Fiocruz há mais de 20 anos.”

E você morador ou trabalhador dos serviços públicos em Manguinhos: conhece ou é usuário do Centro de Saúde Escola? Que relação você tem com essa história? Entre em nosso grupo de WhatsApp para responder.

Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria

O MANGUINHO 60 – 13 DE OUTUBRO DE 20

Educação e Saúde Mental

CIEP Juscelino Kubitschek

Grupo de alunos e professores que participaram do evento na Biblioteca Parque Marielle Franco. Foto: Mulheres do Vento.

Na quarta-feira passada, o dia começou com um alerta nos grupos de WhatsApp para que todos tivessem atenção ao transitar pelas estradas de Manguinhos e adjacências. O aviso era sobre a presença de uma operação policial em Manguinhos acompanhada do caveirão para retirada de barricadas. Essa situação prejudicou o funcionamento de unidades de saúde e unidades escolares. Algumas atividades foram canceladas, mas esse não foi o caso do passeio que tinha sido combinado com as duas turmas de alunos do Ciep Juscelino Kubitschek. O passeio era para um lugar que fica bem próximo a essa escola, a Biblioteca Parque de Manguinhos. Lá, o grupo de alunos participou do lançamento do catálogo “Estratégias culturais em Manguinhos: olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas” e teve a oportunidade de conhecer alguns dos coletivos de Manguinhos dedicados a arte, lazer, esporte, dança e outras atividades promotoras de saúde. Foi uma manhã tensa e intensa. Mas não foram essas as únicas emoções. Muitas outras positivas foram provocadas pelas poesias, músicas e diálogos que fizeram parte do evento.

Escola e Saúde Mental

Perguntamos a alguns participantes: Você considera que esse passeio fez bem para a sua saúde mental? Por quê? Diogo Lázaro Ferreira Costa, aluno do Ciep Juscelino Kubitschek, que participou desse passeio, respondeu assim a nossa pergunta:

“Oi, meu nome é Diogo Lázaro Ferreira Costa, sou do Carioca 2, do CIEP JK, da professora Patrícia. O passeio que teve pra biblioteca foi muito bom, porque deu para relaxar, não precisava só copiar do quadro. Elas passaram algumas informações legais: que nós somos uma família e que podemos contar com elas para tudo. Teve lanche também lá. Mesmo a gente tendo ido pra um lugar perto foi bom, porque não foi só dentro da sala. Foi um lugar diferente, um campo, né?”

“A comunidade escolar está muito carente de um auxílio emocional, a saúde mental ficou muito abalada com a pandemia.”

Patrícia Woolley Cardoso, professora de História da Rede Municipal do Rio de Janeiro, mestre e doutora em História pela UFF, é professora do grupo que participou do evento. Ela atua no Projeto Carioca 2, que é uma turma especial, com o objetivo de auxiliar os alunos que possuem defasagens escolares a poderem desenvolver suas habilidades e concluir o Ensino Fundamental.

“Eu gostei muito de ter participado dessa atividade externa. Aliás, foi a primeira vez nesse ano que eu tive oportunidade de participar de uma atividade como essa. Então, eu acho que isso foi uma troca muito interessante pra mostrar que dentro da comunidade há movimento, há pessoas sim, críticas [pessoas críticas], pessoas que produzem, pessoas que fazem acontecer independente do Estado, já que o Estado, já que o poder público, já que as políticas públicas são insuficientes ou na maioria das vezes ausentes, então nós como seres humanos, cidadãos, pessoas, trabalhadores, moradores da região, professores… Então a gente tem que se mexer. Então achei muito bacana a iniciativa de reunir neste catálogo esses projetos e essas atividades. (…) A comunidade escolar está muito carente de um auxílio emocional, a saúde mental ficou muito abalada com a pandemia, muitos alunos estão agitadíssimos com transtornos emocionais sérios mas que nós professores não temos nem credenciais para identificar. Eu acharia muito legal se houvesse uma parceria da Fiocruz com alguns desses movimentos culturais visando uma melhora da Saúde Mental, por exemplo, a partir da escola, a partir da comunidade escolar.”

Natanael Santos, professor de artes do Ciep JK, também nos deu seu depoimento:

“Ao perguntar a um aluno sobre o que ele mais gostou do evento ele disse que foi o oferecimento do lanche. Então se essa criança se alimenta bem a saúde mental dele imediatamente responde de maneira positiva. Então teve seu ponto positivo nesse sentido. Agora vou explorar bastante com eles a questão cultural em si, as manifestações culturais que houve no evento: poemas, músicas, discursos etc e tal. Isso ainda vou trabalhar com eles.”

Essa experiência vivenciada por alunos e professores do Ciep Jk pode fazer bem também para a saúde de Manguinhos? Clique aqui e venha conversar com a gente sobre isso.

CIEP´s

O MANGUINHO 59 – 06 DE OUTUBRO DE 2022

Coletividade faz bem à Saúde

Coletividade faz bem à Saúde

Saiba mais sobre o Espaço Sonhar e o Coletivo Recriando Manguinhos clicando nos links em azul. Fotos disponíveis em redes sociais das respectivas iniciativas.

O último número de O Manguinho nos trouxe a seguinte questão: “Atividades culturais e construções coletivas fazem bem para a saúde? As escolas, as unidades de Saúde e de Assistência Social podem contribuir para avançarmos mais nessa caminhada em Manguinhos? Como?” Para ajudar a pensar nessas questões reproduzimos aqui partes do catálogo denominado “Estratégias culturais em Manguinhos: olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas” que entre diversos coletivos de Manguinhos apresentam também o Espaço Sonhar e o Coletivo Recriando.

Espaço Sonhar

Fundado em 2014 pela moradora de Manguinhos Quezia Cavalcante, o projeto social Espaço Sonhar, prioriza a garantia de direitos de crianças e adolescentes, como educação, saúde, cultura, esporte e lazer. Em seu trabalho diário a iniciativa atende hoje 26 crianças na faixa etária de seis meses a 10 anos. As atividades cotidianas incluem banho, alimentação, levar e buscar na escola e em atividades extraescolares. Além dessas, existem outras que em média somam mais 80 crianças que participam de atividades de passeios promovidas pelo projeto. A atuação cuidadosa e cidadã do Espaço Sonhar tem contribuído em Manguinhos para dar visibilidade a problemas complexos que dependem da articulação entre políticas públicas, especialmente nos campos da Saúde, Educação e Assistência Social. Esse diagnóstico favorece a construção de soluções pros problemas que dificultam que essas crianças e suas famílias tenham saúde.

Para Quezia, é preciso oferecer oportunidades:

“Entendi que muitas vezes a gente precisa dar o peixe para a pessoa, para esta pessoa também ver que o peixe é bom e a pessoa querer pescar porque não adianta a gente só dar o peixe. Então, essa minha ideia. É o que eu faço hoje com as crianças, com as famílias das crianças. Não só dar o peixe, mas ensinar a pescar e mostrar que existe uma realidade e que eles fazem parte dessa realidade e que eles podem ser o que eles quiserem.”

Recriando Manguinhos

O Coletivo Recriando Manguinhos é um coletivo que realiza oficinas de Direitos Humanos e Cidadania com foco nas crianças da região de Manguinhos, e também passeios, excursões e outras atividades. Tendo como lema “Favela é lugar de brincar e reivindicar”, o Recriando Manguinhos trabalha para que, através da brincadeira, as crianças do território possam ter a oportunidade de serem crianças. Segundo os idealizadores do projeto era preciso imaginar um lugar onde as crianças de Manguinhos pudessem brincar, criar e atuar. Um espaço onde elas pudessem ouvir e reivindicar cidadania, por meio da música, contação de história, arte, pintura e dança.

Para a Elenice Pessoa, moradora de Manguinhos e fundadora do Coletivo Recriando Manguinhos, o inconformismo com a injustiça e as desigualdades sociais é o que dá força às ações e atividades do coletivo:

“Nós nascemos foi em Maio de 2015 de uma postura de indignação com a ausência de políticas públicas voltadas para a infância aqui de Manguinhos. Para a gente aqui a gente não tem espaço de lazer. (…) Contribuir para essas crianças no processo criativo Imaginário. Dar esperança a elas para que elas ainda possam sonhar com futuros . Existe futuro paracada um dos sonhos delas.”

Questões para o diálogo

Essas experiências destacadas apontam necessidades de Manguinhos que deveriam ser atendidas por políticas públicas intersetoriais fundamentadas em atividades coletivas culturais, esportivas, etc que façam parte do currículo escolar por meio da ampliação do tempo de permanências dos alunos nas escolas. A proposta do Programa Especial dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) e o Programa Mais Educação são exemplos de políticas públicas que apontavam nessa direção.

O que o Espaço Sonhar e o Coletivo Recriando Manguinhos têm em comum? Elas trazem alguma dica para a construção de políticas públicas que garantam maior acesso das crianças aos seus direitos? Quais? Como as unidades escolares e as unidades de saúde podem ajudar nisso? Venha conversar com a gente sobre tudo isso em nosso grupo de WhatsApp.

Programa Mais Educação

O MANGUINHO 58 – 29 DE SETEMBRO DE 2022

Arte e cultura em Manguinhos

Arte e cultura em Manguinhos

Clique sobre a imagem para acessar o catálogo. Foto: Mulheres do Vento.

O Manguinho dessa semana convida você leitor a participar do lançamento do catálogo “Estratégias culturais em Manguinhos: olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas”, organizado por Ana Paula Guljor, Silvia Monnerat, Paul Heritage e Paulo Amarante. O evento será na próxima quarta-feira, às 10h, dia 5 de outubro, na Biblioteca Parque de Manguinhos. O catálogo é resultado do projeto “Estratégias culturais como alternativas de inclusão social de populações vulnerabilizadas no campo das políticas públicas sobre saúde mental: estudo de caso na comunidade de Manguinhos”, e foi desenvolvido em parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e People’s Palace Projects, da Queen Mary University of London (QMUL). O projeto tem como objetivo “compreender experiências socioculturais, interpretando-as como dispositivos privilegiados de cuidado, inclusão social e construção de direitos.”

Um total de 40 iniciativas foram selecionadas no catálogo. Segundo seus organizadores “a participação em projetos de arte e cultura ou em experiências voltadas para profissionalização, trabalho, economia solidária ou a participação social se apresenta como estratégia fundamental para a produção de vida e saúde em comunidade.”

Durante a pesquisa, no início desse ano, três sessões de conversas virtuais ao vivo com representantes dos coletivos e das iniciativas culturais mapeadas foram feitas. Destacamos aqui nessa edição trechos dessas conversas como um convite para que conheçam o catálogo, assistam essas conversas e interajam no território com os coletivos.

Revalorizar experiências

Para Paulo Amarante, que é médico psiquiatra, doutor em Saúde Pública e pesquisador da Fiocruz, as pessoas se desvalorizam porque usam o critério do dominador. Por isso considera importante a revalorização das experiências nas favelas:

“Nosso projeto é o quê? Ver essa questão das experiências culturais, desses projetos, dessa iniciativa, desses coletivos comunitários com outro olhar; que amplia o valor dessas experiências para a comunidade construindo vida, construindo cultura de paz, cultura de solidariedade, [continência] para as pessoas. Essa é a nossa visão de saúde mental. Que está muito reduzida hoje ao oposto de doença mental, ou até sinônimo de doença mental. A pessoa fala: “a minha saúde mental está bem”. Por quê? Por que não têm transtorno? E o sofrimento, ou talvez um transtorno nesse sentido genérico do termo, é natural do humano. Nós precisamos do sofrimento e do transtorno inclusive para mudar, para querer mudar etc.”

Franciele Campos, artista visual, historiadora da arte, moradora de Manguinhos e uma das fundadoras do Coletivo Mulheres do Vento, iniciativa que está presente no catálogo, destaca as dificuldades de reconhecimento das produções e conhecimento produzido nas favelas:

“O que esses projetos trazem pra gente de fato? Porque a gente está aqui dividindo um saber que é muito caro pra gente, a nossa vida. A gente aqui tem uma ideia de produzir um catálogo virtual com fotos e histórias, mas mais que isso é construir também uma rede que não existia. Não é nós, nós nos conhecemos, o que não conhecemos são essas instituições que há muitos anos vem contando a nossa história. Há muitos anos vem sugando, tirando nossas histórias sem trazer o mínimo retorno pra gente. Sem nos ver como pesquisadores, sabedores dessa história, sobreviventes de um sistema altamente racista.”

Valentina Carranza, comunicadora social e também uma das fundadoras do Coletivo Mulheres do Vento, ao responder uma pergunta sobre a sustentabilidade das públicas em Manguinhos disse o seguinte:

“Sobre a questão dos editais, que são magros, esporádicos… eles também geram concorrências entre a gente, não é? (…) Pensar nisso também: políticas públicas com financiamentos reais. Além de dar bolsas, que venham dispostas a escutar. Providenciar recursos, mas confiar, construir com quem já está fazendo. (…) Entender essa complexidade: projetos com estruturas para bancar várias estratégias que já estão rolando e deixar eles fazerem. Sabe?”

E você? O que acha? Atividades culturais e construções coletivas fazem bem para a saúde? As escolas, as unidades de saúde e de assistência social podem contribuir para avançarmos mais nessa caminhada em Manguinhos? Como? Que tal trocar uma ideia sobre isso no nosso grupo de WhatsApp?

Sessões de conversa do catálogo Estratégias Culturais de Manguinhos

O MANGUINHO 57 – 22 DE SETEMBRO DE 2022

Audiovisual nas escolas

Todos nós que passamos por uma escola lembramos das aulas e dos exercícios de interpretação de texto. Interpretar um texto é mais do que saber o que está escrito. Interpretar significa compreender o sentido do texto que está sendo lido, ou seja, pensar e refletir criticamente a partir da leitura. E, desse modo, criar uma opinião própria. A gente não fez essa pesquisa, mas podemos apostar que muitos educadores das unidades escolares de Manguinhos apontariam que um grande desafio que enfrentam em sala de aula está ligado à dificuldade dos alunos com o exercício de interpretação.
A gente está fazendo referência até aqui ao texto escrito, mas você sabia que as imagens também podem ser interpretadas? Você já parou pra pensar que uma fotografia pode estar dizendo mais coisas do que estamos vendo? E que diferentes pessoas podem ler uma fotografia de diferentes formas? Que imagens estão historicamente ligadas às favelas? Como interpretá-las e criar outras novas de forma crítica?

O audiovisual nas escolas

Na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, que fica em Manguinhos, na Fiocruz, existe uma disciplina ofertada aos alunos que se dedica exclusivamente à produção audiovisual. Para o professor-pesquisador dessa unidade escolar, Gregório Galvão de Albuquerque, a produção de filmes e vídeos no espaço escolar possibilita que os alunos expressem de forma crítica a sua própria realidade.

“Eu vejo o audiovisual e a produção estudantil dessa forma: os alunos falam sobre bullying, sobre sexualidade, sobre o cotidiano escolar porque vivem isso. Então, ao mesmo tempo que eles estão produzindo sobre isso eles estão colocando em questão e produzindo conhecimentos sobre essas coisas que atingem eles no cotidiano escolar e particular deles. Eu acho extremamente interessante a produção audiovisual. A gente tem uma questão de estudo do que é a imagem, através de séries, de cineclubes, de filmes, mas ao mesmo tempo é muito importante a produção do estudante, a produção de vídeos pelos estudantes.”

Identidades

Muitos exemplos dessa produção estudantil da Escola Politécnica podem ser encontrados no canal do youtube da escola. Destacamos aqui o documentário feito pelos alunos da Educação de Jovens e Adultos, em 2013, intitulado Identidades. Nesse filme podemos assistir diferentes relatos dos jovens e adultos que frequentavam o EJA e falaram sobre o lugar onde nasceram, dos estudos, da infância e de seus desejos e sonhos. Selecionamos aqui dois depoimentos. Quando perguntado sobre o lugar que mora, um jovem aluno respondeu:

“Eu gosto, é o lugar onde eu nasci e espero continuar por aqui, entendeu? Eu já morei em outro lugar mas não consegui viver lá não, preferi voltar pra cá. A melhor coisa que tem são as pessoas que foram nascidas e criadas comigo, meus vizinhos que me respeitam muito. Dependendo das circunstâncias e da situação eu sei que eu posso contar com muitos deles que estão próximos de mim. Não só na ocasião de olhar a minha filha, mas se eu precisar de um dinheiro ou de um conselho, estão sempre de pé ali pra me atender, entendeu? E muitas coisas que eu nem sei explicar de bom que tem ali e se gante falar entre nós vamos até ouvir, mas lá fora nêgo vai querer dar risada da nossa pessoa.”

Uma outra aluna falou das difiuldades que enfrentava para estudar na infância:

“Nasci no interior, não tinha escola, tinha maior vontade estudar, muita sede de estudar, gostava de estudar, mas não tive oportunidade, porque trabalhava na roça. Eu queria estudar, mas às vezes eu chegava da roça às 10h, mas 11h eu tinha que estar na escola, uma hora da tarde eu voltava, duas horas da tarde eu tinha que estar no roçado trabalhando porque meu pai faleceu quando eu era pequena e minha mãe ficou com dois filhos pra criar e a gente teve que se virar.”

O que fazer?

Infelizmente, nem todas as unidades escolares de Manguinhos possuem uma estrutura física e equipamentos para a produção de filmes e documentários, e nem possuem professores dedicados a essa finalidade. A escola pública do século XXI ainda é a mesma de décadas atrás e ainda assim muito precarizada. A oferta de uma educação visual que atinja todos soa como um sonho distante.
Diante desses desafios, o que fazer pra mudar essa realidade por meio da cooperação entre as unidades escolares e de saúde de Manguinhos?

O MANGUINHO 56 – 15 DE SETEMBRO DE 2022

O Jornal Fundamental

Jornal Fundamental

O Manguinho da semana passada falou sobre a História do Brasil. Inspirados por esse tema começamos a perguntar para as escolas o que elas gostariam de nos contar sobre suas próprias histórias. A Michelle Santos de Oliveira, militante de Manguinhos e professora da Educação de Jovens e Adultos da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, nos contou a história do jornal que estão produzindo por lá.

Jornal Fundamental

“Esse jornal surge do desejo de registrar as atividades pedagógicas interessantes que são desenvolvidas entre os professores da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Fundamental Séries Iniciais e os estudantes. Estas atividades envolvem, não apenas, a sala de aula, mas também atividades de campo, produções musicais, atividades em laboratórios, atividades nas ruas de Manguinhos, etc. O tema do jornal parte das atividades que tiveram maior mobilização e participação dos alunos. O jornal tem os seguintes objetivos: primeiro, o desejo de registrar atividades pedagógicas interessantes; o segundo, produzir materiais que possam ter um largo alcance. A gente ouvia dos estudantes, desejos de levar suas produções para seus familiares. Às vezes, familiares que estavam em outros estados, como o caso dos estudantes nordestinos. Além disso, é um material impresso, colorido, bonito. Eles se reconhecem no jornal: nas imagens, na produção das atividades retratadas no jornal. Constroem esse sentimento de autoria e de protagonismo. Isso é muito bacana! O jornal é feito semestralmente e apresentado na nossa atividade de culminância que se chama Laboratório do Livre Saber. Nossa expectativa é de conhecer outras práticas pedagógicas interessantes construídas por outras escolas públicas do território de Manguinhos. Certamente, teremos muito o que trocar e conversar. O jornal pode ser um instrumento de comunicação muito interessante para dar visibilidades a estas histórias educativa e participativa. Além disso, o Jornal Fundamental é um instrumento político-pedagógico muito potente para debatermos sobre questões de Manguinhos. Em outras edições, falamos sobre os direitos mais violados em Manguinhos por meio de uma pesquisa realizada pelos alunos no território, já falamos sobre a horta de Manguinhos e também abordamos sobre a Segurança Pública nas favelas.”

A cara da EJA Manguinhos

O número mais recente do Jornal Fundamental é de julho de 2022. Nessa edição é apresentado o resultado de uma pesquisa feita pelos alunos sobre o perfil da EJA nessa escola. Noventa pessoas responderam perguntas sobre trabalho, religião e local de nascimento. Desse total, 75 são mulheres e 15 são homens. A maioria dos estudantes são negros, evangélicos e moram em Manguinhos. Setenta e dois disseram ter filhos e muitos relataram que trabalham dez horas ou mais por dia. As mulheres que trabalham fora também são as principais responsáveis pelas tarefas da casa. Além dos resultados dessa pesquisa, a edição atual do Jornal Fundamental apresenta muitos outros assuntos e temas. O leitor pode, por exemplo, ler o relato de uma atividade chamada Jantar de Memórias, que consistiu na exposição das histórias de vida dos alunos em um varal. A relação entre comida, memória e poesia era o fio condutor dessas histórias. Um outro assunto abordado foi o da importância da reforma agrária para a vida de quem mora nos campos e nas cidades do Brasil. Por fim, diante de uma diversidade de temas, é possível ainda que o leitor tenha acesso ao relato da oficina de alimentação saudável e higienização dos alimentos, ocorrida na cozinha da Escola Politécnica.

EJA Manguinhos

No Jornal Fundamental ficou registrado para a história algumas das experiências vivenciadas por alunos nessa escola. Então, perguntamos: Quais outras histórias das unidades escolares, de saúde e da Assistência Social de Manguinhos podem ser contadas sobre o que estão fazendo para promover educação e saúde nesse território?

Saiba Mais EJA Manguinhos

O MANGUINHO 55 – 08 DE SETEMBRO DE 2022

Independência ou morte?

Quem são os nossos heróis nacionais?

O grito dos excluídos ecoa neste bicentenário da independência.

No Brasil, no dia 7 de setembro, comemora-se o Dia da Independência. Nesta data, há 200 anos, em 1822, o país se tornava simbolicamente uma nação independente, ou seja, separava-se de Portugal, que durante três séculos explorou o Brasil como território colonial. Em 1500 quando os portugueses aqui chegaram tomaram posse do país como se as terras e as riquezas daqui pertencessem a eles. Fizeram do Brasil uma colônia, ou seja, um lugar que exploravam economicamente, dominavam militarmente e administravam segundo seus próprios interesses. Esse ano por conta dos 200 anos da data da independência muitos projetos estão sendo realizados nas escolas, buscando compreender o que de fato foi o processo histórico de independência. Antigamente era comum tratar D. Pedro I como o grande e único herói da independência. A gente sabe que não é assim, não existem salvadores da pátria, a história nunca é feita por uma única pessoa. Processos de mudanças políticas são sempre o resultado de um conjunto de acontecimentos, revoltas, luta de classes e resistências coletivas. Antes de 1822, por exemplo, podemos citar outros acontecimentos da história que estão ligados à independência. A chamada Inconfidência Mineira, de 1789, que levou à execução de Tiradentes, tinha como objetivo instalar uma república em Minas Gerais e separar de Portugal. Em 1798, na Bahia, um outro acontecimento nos ajuda a compreender que uma insatisfação crescente com a coroa portuguesa já vinha se acumulando no Brasil décadas anteriores à Independência. A Conjuração Baiana, ou Revolta dos Alfaiates, foi um movimento que tinha também como objetivo a implantação de uma república baiana e a separação de Portugal, mas diferente da Inconfidência Mineira contou com a participação de amplos setores das camadas populares, como escravos, negros libertos e homens brancos de baixa renda. Entre as suas reivindicações estava a abolição da escravidão.

Uma falsa independência

Para o Sr. Beserra Araújo, morador de Manguinhos e integrante da equipe de O Manguinho, o que houve foi uma “falsa independência”, que foi resultado do medo que as elites tinham dos movimentos de revolta e contestação colonial que cada vez mais cresciam. Ele cita também a Insurreição Pernambucana de 1817 e o líder Frei Caneca, executado em 1824. A gente perguntou para ele o que significa ser um país independente:

“Um país independente é um país soberano com decisões próprias sem interferências externas de outros países. Independência é priorizar as decisões internas visando o bem estar do seu próprio povo.”

E sobre comemorar a independência do Brasil em 2022, veja o que ele disse:

“Comemorar 200 anos de Independência do Brasil é comemorar 200 anos de mentiras. O que devemos fazer é aproveitar para denunciar ao povo esses 200 anos de falsa independência. Exigir o fim da mentira como uma “ verdadeira independência”.

Rupturas e continuidades

Bruno Mussa Cury, professor de história do CIEP Juscelino Kubitschek, ao comentar sobre as comemorações da Independência deste ano, destaca que o culto aos resquícios de um passado imperial português ainda sobrevive entre nós. Ele afirma que a história do Brasil está marcada por processos inacabados de rupturas:

“As nossas rupturas são mais associáveis às permanências do que às revoluções, desde a nossa Independência, que é consequência do processo da relação econômica Portugal e Grã-Bretanha, daqueles conflitos na Europa, a vinda da família real, depois o retorno e a associação da colonização do Brasil dentro do nacionalismo português. Se acaba chegando a esses acordos em que o Brasil só se torna independente mantendo o seu papel nesse concerto nas relações internacionais, nos mantendo nos poderes estabelecidos e nas relações sociais estabelecidas. A gente percebe que a gente tem uma Independência questionável, a gente ainda não tem um país que se formou pela base, pelas aspirações da comunidade, do povo que compõe esse território. A gente tem um país feito de cima para baixo com rituais e sinais que são muito mais protocolares, que são muito mais tradições inventadas. Essa coisa do verde amarelo, o hino nacional, as exaltações que a gente faz não tem relação nenhuma com as aspirações da construção de um Brasil verdadeiramente feito pelos brasileiros.”

Conhecer a história do Brasil nos ajuda a enfrentar às violações de direitos que atingem as favelas e os territórios vulnerabilizados? Responda em nosso grupo de WhatsApp.

Saúde Coletiva e Independência do Brasil

O MANGUINHO 54 – 01 DE SETEMBRO DE 2022

Atenção aos seus direitos!

Regras de funcionamento da Clínica da Família

Para uma melhor visualização num tamanho maior do documento acima clique aqui ou sobre a imagem.

Na semana retrasada, O Manguinho falou de uma importante ferramenta de vigilância popular da saúde, que é o Placar da Saúde. Nesta semana destacamos uma outra, que também possibilita e favorece a participação e a tomada de decisões por parte da população em relação aos serviços de saúde. A gente está falando do documento que apresenta de forma resumida as informações básicas de funcionamento de uma Clínica da Família na cidade do Rio de Janeiro. Nele você encontrará, por exemplo, uma relação de serviços prestados pela unidade da saúde, a frequência mínima que os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) devem fazer visitas domiciliares, os horários de funcionamento da unidade, as regras para o pedido de um atestado de saúde e para o fornecimento de medicamentos, os direitos e deveres de usuários e trabalhadores, além de informações sobre agendamento de consultas. Em Manguinhos, você pode encontrar esse documento, como um adesivo azul, fixado nas paredes da Clínica da Família Victor Valla com o seguinte título: “Atenção equipe: você já sabe, mas não custa lembrar”.

Controle social e participação

Para o trabalhador da Fiocruz, Joyker Peçanha Gomes, um ponto importante a ser destacado nesse documento é o que fala sobre o Colegiado Gestor:

“Eu gostaria de destacar um ponto: o do colegiado gestor. Eu entendo que esse item deve ser o ponto de partida para a gestão participativa. A partir dele é possível fazer o melhoramento, o acompanhamento, e a vigilância popular de todos os outros itens e componentes. No item Colegiado Gestor, eles colocam como boa prática que o diretor gerente da unidade deve realizar uma reunião mensal e que essa ocorra na primeira semana de cada mês para planejar ações, fazer avaliação, isso tudo com a participação da população. Então seria interessante verificar com a unidade de saúde qual é o dia que realiza, qual é o dia da primeira semana de cada mês que é realizada essa reunião para participar. Eu entendo dessa forma, que seria uma boa a participação da população, para ajudar no planejamento, na avaliação dos serviços daquela clínica da família. Ele informa também que os trabalhadores da clínica devem realizar reuniões semanais para planejar suas ações. Eu acredito que essa reunião mensal oriente também essas reuniões semanais para os trabalhadores melhorarem suas ações e planejar melhor suas ações. O terceiro item fala sobre o funcionamento da unidade. Então fala para contribuir com esse funcionamento da unidade ligando para 1746 para fazer um elogio, crítica, ou sugestão de melhoria. O que é mais uma forma de participação da população. O quarto item detalha mais a questão da insatisfação. Se tem uma insatisfação, logo de imediato, é necessário expor essa insatisfação de forma objetiva e logo no momento para tentar melhorar o serviço daquela unidade. Acreditando que todos ali, trabalhadores, população e o gerente, todos querem fazer a melhoria do equipamento de saúde, querem melhor atender. Também é destacado o telefone da ouvidoria da prefeitura, o 1746 e também o do Disque Saúde, que é o 136. No quinto item, fala sobre a questão se deseja conhecer mais detalhes. Além desse esforço, nessa forma síntese, nesse adesivo, tem a carteira de serviços, que está disponível tanto na unidade, como você pode solicitar ao agente comunitário de saúde de seu vínculo para ter acesso a essa carteira de serviços. Normalmente é um folhetinho, um caderninho que você leva, que tem lá explicando todo esse acompanhamento, seus direitos, tudo o que a equipe faz e que também é usada para fazer o seu registro. O sexto item é placar da saúde que eu acredito que seria as informações da unidade de forma síntese para fazer essa vigilância popular. Eu acho que é isso. Acho que a gente tem que usar melhor essas ferramentas e fazer essa vigilância popular iniciando até a partir do que a própria prefeitura considera como boas práticas. Isso não quer dizer que tem que se limitar a isso.”

Como essas informações podem contribuir para facilitar e fortalecer ações intersetoriais promotoras de saúde e de uma vida melhor em Manguinhos? Responda essa pergunta em nosso grupo de WhatsApp.

O MANGUINHO 53 – 25 DE AGOSTO DE 2022

Saúde e escolaridade em Manguinhos

Educação e os determinantes sociais da saúde

Na semana passada, trouxemos dados sobre a vida e a saúde em Manguinhos. As informações sobre escolaridade foram as que mais provocaram o diálogo. Afinal de contas, o que a escolaridade tem a ver com saúde? Destacamos aqui algumas vozes de mulheres que fazem parte do grupo de WhatsApp que constrói O Manguinho e outras que chegaram porque o diálogo se espalhou em diversos grupos e também em conversas entre amigas.

Maria de Fátima Lourenço, a Dona Fátima, de 66 anos

Escolaridade e saúde andam juntas porque a escolaridade é conhecimento e conhecimento é saúde. Saúde é vida e vida com conhecimento você consegue tudo. Consegue alimentar melhor seus filhos, consegue botar o filho numa boa escola, consegue fazer com que seu filho se consulte no início de uma doença, consegue entender que seu filho não possa fazer certas coisas para se contaminar com a doença. Aprende a proteger o meio ambiente. Com conhecimento tudo fica mais fácil. A vida e a saúde fica mais bonita.”

Regina Barros, 56 anos, moradora da Vila Turismo em Manguinhos

“Na minha opinião escolaridade e saúde tem tudo a ver porque ter escolaridade é muito importante para todos. Facilita o entendimento de diversas questões que afetam a nossa vida, entre elas a questão da Saúde Pública. Por ter um bom estudo podemos ter uma boa interpretação de texto para podermos entender muitas situações que são dadas em explicações e discursos usando palavras que os que têm menos estudos não conseguem entender. Aprender para mim é saúde. Então vamos zelar pela nossa saúde e continuar a ter uma boa escolaridade.”

Maria Helena Souza, 68 anos, moradora do Amorin, em Manguinhos, disse o seguinte:

“A escolaridade para mim está sendo o prato principal da minha vida junto com a saúde. (…) O último seminário que teve foi da saúde mental foram faladas tantas coisas, tantas situações. Umas eu tinha noção por ter vivido, experimentado, que a minha ida e vinda do trabalho pegando o ônibus cheio. Eu estava super, hiper estressada? Não. Estava com raiva? Não. Era minha saúde mental que já estava super afetada com esse ir e vir de ônibus cheio, chegando atrasada, chegando em casa dava mal para fazer alguma coisa e ir dormir. Se você não tiver saúde você não consegue estudar, se você não tem estudo você não consegue entender os sintomas da nossa saúde de hoje em dia.”

Maria da Graça Turso da Silva, a Dona Graça, 70 anos de idade e moradora de Manguinhos:

“Estava aqui pensando sobre a escolaridade e a saúde. Escolaridade, saúde… Porque fica difícil, porque você vê, médicos. Tem médicos que tem a escolaridade, formação… e são grossos, tratam a gente mal, não olham para gente, olha só para o computador. Você vê advogados, tem escolaridade, formação também e não estava nem aí para o pobre, fazem mais as coisas é para ganhar dinheiro… Então, eu acho que é em tudo. Eu não consigo ver. Não estou conseguindo não, ver a importância de um com o outro: da escolaridade com a saúde. Porque não adianta a pessoa ter a escolaridade, entender das coisas e não poder tratar. Não ter dinheiro para comprar remédio. Então, eu não estou conseguindo absorver não, não estou mesmo. Está difícil para mim isso aí. Eu tenho que estudar mais para poder… Porque eu fico vendo. As pessoas que estudaram pouco não querem ser melhor do que ninguém. As que tem mais a escolaridade, mais formação, querem saber mais que os outros, pisar nos outros. Não são todos, claro, eu não estou falando que todo mundo é assim. Claro, né? Eu não estou falando que todo mundo é assim, mas tem um povinho que é assim. O que adianta ter estudo, ter educação ou ter estudo e não ter educação. Tem pessoas que não sabe nem ler e nem escrever mas se comunicam melhor com as outras. Não estou sabendo fazer essa ligação de escolaridade com saúde, não estou não. Me desculpe mas na próxima se Deus quiser.”

Esses depoimentos ajudam a pensar sobre a importância da educação para a promoção da saúde. Mas precisaremos dialogar sobre os questionamentos feitos por Dona Graça. Afinal, a escolaridade sozinha garante a educação e a saúde para todos ou será que para atingir plenamente esse objetivo além de aumentar a escolaridade será necessário também modificar a forma como a sociedade está estruturada? Venha participar desse saudável e educativo diálogo em nosso grupo de WhatsApp.

O MANGUINHO 52 – 18 DE AGOSTO DE 2022

O que é o placar da saúde?

Placar da Saúde da Clínica da Família

Nessa semana O Manguinho procura responder o que é o placar da saúde e qual a sua importância para a promoção da vida e da saúde em Manguinhos.

O placar da saúde é um mural ou painel que deve ser fixado em local acessível e público. Nele, a Equipe da Saúde da Família apresenta os dados e informações sobre o seu trabalho, permitindo assim a transparência dos serviços prestados e da produção realizada pelas equipes com a população. Desse modo, trabalhadores da saúde, moradores e usuários dos serviços tem acesso periódico à realidade dos atendimentos no território, assim como um diagnóstico situacional do lugar, ou seja, a exposição de indicadores sociais como número de domicílios que possuem abastecimento de água e coleta de lixo, crianças que estão fora da escola e pessoas que não foram alfabetizadas. Em Manguinhos é possível encontrar o placar da saúde em duas unidades de saúde, na Clínica da Família Victor Valla e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria.

Para a trabalhadora da Escola Nacional de Saúde Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) Maria das Mercês Navarro Vasconcelos, o placar da saúde pode ser uma ferramenta importante para a população ter maiores possibilidades e motivações para lutar pelos seus direitos. A gente perguntou pra ela por que o placar da saúde traz informações sobre o destino do esgoto, analfabetismo e outras informações desse tipo. O que isso tem a ver com saúde?

“Essas informações são extremamente importantes porque não dá para ter saúde com um saneamento básico mal feito. O placar traz informações sobre isso quando fala do lixo, da água, do esgoto. A saúde ela não é simplesmente não estar doente, ela significa você ter condições para não ficar doente, e um saneamento básico bem feito é uma condição fundamental. Mas além disso também o placar traz informações sobre a questão da escolaridade e quando você observa que no território existe uma baixa escolaridade, isso mostra que para esse território está faltando muita coisa. Quando não se tem acesso a esse mínimo significa que está faltando também muitas outras coisas. Está faltando a moradia saudável, está faltando um trabalho que permita uma boa condição de vida, estão faltando muitas outras coisas. Ter acesso a esse placar e conhecer a relação do que acontece na saúde ajuda a população a entender o que falta ali e o que ela precisa se organizar para lutar para conseguir acesso do que que não está conseguindo. Então esse placar pode ajudar muito. Ele pode ser aprimorado. É possível a população participar não só usando o placar, mas também construindo itens que ela acha que deva ter ele ali expresso para poder conseguirmos entender melhor o que está acontecendo naquele lugar.”

Você que frequenta as duas unidades de saúde de Manguinhos aqui citadas já deve ter visto o placar da saúde. Você já ficou alguns minutos para observá-lo com calma? Em quanto tempo as informações contidas no placar são atualizadas? Que outros dados e informações você adicionaria e gostaria de conhecer sobre a saúde de Manguinhos? Os dados do placar de fato para você estão expressando a realidade do território? Unidades Escolares poderiam também adotar a mesma ideia e criarem os seus painéis? Participe do nosso grupo de WhatsApp e responda essas perguntas.